Retirar-se na solidão que alimenta a vida “daqueles que se contentam em contentar a Deus”

A sensibilidade de Jesus é algo impressionante. Ela nos ajuda a repensar a vida e a contemplá-la com o mesmo olhar do Peregrino de Nazaré. As motivações e inquietações geradas por suas perguntas e demandas capacitaram todos aqueles que se deixaram enamorar pela sua desafiadora missão. 

O olhar do coração vai mais longe que os olhos. O cansaço daqueles que o seguiam em busca de milagres o inquietava e o fazia provocar ainda mais aqueles que estavam no processo do discipulado missionário. Rezemos com as atitudes do Cristo:

  1. Atravessar. É preciso atravessar  para descobrir a beleza e as surpresas que estão do outro lado da margem. “Quem se segura na segurança” da margem conhecida perde a oportunidade de descobrir os novos horizontes que fazem a vida valer a pena. Permanecer nas seguranças gera a mesmice que por sua vez gera o conformismo medíocre. Há quanto tempo estou na mesma margem? Por que estas seguranças não me dão felicidade?
  2. Subir. O cansaço é certo para aqueles que se atiram numa escalada. A ascese é fruto do exercício e da superação. Obesos espirituais que se contentam com a tranquilidade e o marasmo do “não exercício” e do “esforço zero” se tornam glutões de devoções e fracassados no exercício da caridade. Estou disposto a escalar a montanha?
  3. Levantar os olhos. Jesus levantou os olhos do coração e viu ao longe o sofrimento de seu rebanho. Olhar significa se comprometer. Não posso mais esconder a imagem que me compromete em minha consciência. É por isso que milhões de medíocres religiosos preferem abaixar a cabeça e fechar os olhos, se perdendo em si mesmo, que levantar os olhos do coração e se comprometer com o sofrimento do outro. Onde está o meu olhar? O que fazer com as imagens que me comprometem e que estão registradas em minha consciência?
  4. Inquietar. Provocar a reação do outro na consciência que sozinhos não podemos transformar a realidade. Lançar perguntas inquietantes como as de Jesus e esperar as repostas. A inquietação gera a resposta vocacional. As respostas prontas e comandos geram escravos, a inquietação gera pessoas livres. A quem inquieto com o meu modo de vida?
  5. Escutar. Seja a dúvida de Filipe ou a possibilidade apresentada por André. Escutar significa acolher o outro com sua história e com sua percepção. Toda escuta gera relação e nela podemos encontrar a solução. Minhas orelhas são maiores que a minha boca? Por que Deus me deu duas orelhas e somente uma boca?
  6. Organizar. Missão é vida, logo ela é organismo. A articulação se torna portanto fundamental no processo de facilitação e gestão do serviço. Organizar é próprio de quem é belo. Pois a feiura é filha da desorganização. Que bom seria se todas as nossas atividades fossem precedidas de oração… planejamento… ação… avaliação e celebração. Muitas frustrações e energias desperdiçadas poderiam ter sido evitadas. Como organizo minha vida?
  7. Agradecer. A ação de graças de Jesus é sinal de sua fidelidade e de seu amor ao Pai. Oxalá que a ação de graças encontrasse lugar em nossas orações capitalizadas por pedidos infantilizados. Tenho um coração agradecido ou sou o coitadinho que faço das minhas orações um muro de lamentações?
  8. Alimentar. Com abundância. Não deixar ninguém com fome, esta é a meta de Jesus. As pessoas que fazem parte da minha vida são saciadas com o meu testemunho de vida? O que tenho feito com os pães e os peixes que Deus me deu para partilhar? Eu os escondi? Eu os comi sozinho?
  9. Educar. Que nada se perca. O cuidado e a sobriedade são marcas de quem sabe o valor dos dons que vem de Deus. Os cestos que sobraram nos ensinam que a vida eucarística é a vida partilhada. Quem se doa recebe em abundância. Tenho educado para a abundância fraternal?
  10. Retira-se. Sinal realizado. Agora é a hora da verdadeira alimentação daqueles que tem fé: Retirar-se na solidão que alimenta a vida “daqueles que se contentam em contentar a Deus” (Sta. Miriam de Jesus Crucificado). Tenho saudades de estar “à sós” com Deus?

Enfim, a Liturgia da Palavra deste domingo nos convida a viver de maneira digna, segundo a nossa vocação de alimentar o mundo com a fraternidade. Diante de 800 milhões de pessoas que passam fome no mundo nos sentimos entristecidos, pois o planeta produz o suficiente para alimentar quatro vezes mais a população mundial. O desperdício e o consumismo de alguns geram os famintos deste tempo que se chama hoje.

Outra chave de leitura para a liturgia de hoje se encontra numa Teologia Eucarística com menos ostentação e mais inculturação, com menos “multiplicação” e mais partilha, com menos individualismo e mais socialização. Quem lava os pés dos outros não tem medo de partilhas os pães e os peixes… quem se entrega a obesidade espiritual fica “estufado” com suas devoções midiáticas e tranquilo… tranquilo… “espera” o Cristo se virar com suas multiplicações.

Por pe. Éder Carvalho Assunção – Missionário da Prelazia de Lábrea no Corno da África [email protected]

 Leitura Orante: 2Rs 4,42-44/Sl 144/Ef 4,1-6/Jo 6,1-15

 

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