28 de Novembro de 2014

O “vazio necessário”

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por Pe. Éder Carvalho Assunção – Missionário da Prelazia de Lábrea no Corno da África padre.eder@hotmail.com

Vivenciando o Tempo do Advento

Creio que a sensibilidade e ternura da mulher são fundamentais na aproximação da compreensão da mística deste tempo que chamamos “Advento”. Mais do que definições etimológicas, o mesmo nos lança na dimensão dos “Arranjos Existenciais” que formam o caráter e “moldam” o modo de ser.

Em toda pessoa humana existe um “vazio necessário” que inquieta e deixa sempre uma sensação de “incompletude”. Portanto: esperar, desejar, sonhar, angustiar e experimentar são as inquietudes da mulher gestante e os “sacramentos” deste tempo litúrgico que se vislumbra.

Esperar por amar e não por satisfazer-se.

Imagine uma gestação sonhada, “esperada ao extremo” e, no dia do parto, uma surpresa: nasce uma criança portadora de necessidades especiais. Choro, desespero, lamentação, frustação, reclamação e até mesmo, a rejeição inicial. Após, tudo se acalma, pois a criança com necessidades especiais, como qualquer outra criança, tem um olhar que derruba todos os muros de lamentação.

Ah, o olhar… feliz de quem contemplou e rezou com a Beleza da Perfeição no olhar da criança anencéfala… down… autista… soro-positivo… É fantástico como uma criança portadora de necessidades especiais consegue irradiar a alegria no ambiente familiar. Algumas partem precocemente e fica um vazio enorme no coração.

Na verdade nós somos esta criança portadora de necessidades especiais. A perfeição caminha bem distante de nós. Mesmo assim, Aquele que nos ama na gratuidade nos espera em nossas fragilidades e limitações.

Esperar sem exigir recompensas

O Advento revela este mistério do Amor que espera sem exigir recompensas, do Amor que ama por amar. Esta espera não se dá na mediocridade da passividade, mas na vitalidade da atividade do Amor em nós, que nos faz vislumbrar e enxergar a presença de Deus nas situações mais desafiadoras da humanidade.

Quando se fala em espera criativa, compreende-se a dimensão de mão dupla, pois a humanidade espera em Deus e Deus quis esperar pela humanidade, ou seja, esperamos em Deus e ele espera de nós. A imagem do oleiro utilizada pelo profeta Isaías ajuda a compreender as mãos do artesão sobre a obra criada. Após vem o olhar da espera do cumprimento da missão para a qual o vaso foi criado. O “vazio necessário” nada mais é que a saudade das mãos do Oleiro que não nos colocou numa forma e sim deu a nós a “forma” que Ele quis.

Esperar: a vida como uma grande vigília

Em síntese, a vida humana é um Advento. A vida é uma grande vigília, onde estamos acordados na criatividade do Espírito. Vigia-se sobre si no respeito aos próprios limites, vigia-se sobre o outro pautado na “caridade sem razão”, vigia-se sobre o cosmo na completude da obra da Criação, vigia-se sobre Deus na esperança da plena realização.

Esperar com o fecundo ventre da Vida Consagrada

Sem dúvida nenhuma a Vida Consagrada é um sopro da Maternidade de Deus sobre este tempo que se chama hoje. Em cada vida consagrada encontramos o silêncio da escuta, a beleza da entrega, a criatividade vocacional. Em cada carisma um perfume de Deus no jardim da Igreja. Numa comunidade de imperfeitos a graça de serem por Deus encontrados e Nele transformados.

No claustro a solidão que apaixona e completa. No claustro somente o Único Necessário. No claustro a oferta voluntária e a renúncia das distrações. No claustro, a harmonização necessária do coração que aceita a sua vocação de ser coração, que não precisa ser visto, porém, para quem silencia, é possível escutar o som do coração. Qual é a mulher que não chora ao escutar o coração de bebê em seu ventre? Assim hoje, a Igreja em Espera que somos nós, chora de alegria ao sentir a Vida Consagrada Monástica e Contemplativa, que faz de sua vida “um céu para aqueles que se contentam em contentar a Deus” (B. Miriam).

Além do claustro batem os corações e batem os pés na poeira do Caminho. A Vida Consagrada Apostólica que vive a proximidade com os que mais sofrem, que missiona, que vai além. Nas grandes periferias, nos sertões mais escondidos, nos países em guerra, ao lado dos que passam fome, ali está a Vida Consagrada Religiosa. Um abraço de Deus para este tempo. Com o processo natural de envelhecimento é impressionante perceber a jovialidade das Pessoas Idosas Consagradas. Aqui, registra-se a gratidão através do martírio recente das irmãs Bernadetta, Olga e Lúcia (que tinham entre 75 e 83 anos). Elas dedicaram sua vida a missão ao povo de Burundi e são sinais que a Vida Consagrada na Igreja hoje é Evangelho, Profecia e Esperança.

 

Que Sagrada Escritura nos Inquiete na Ativa Espera pelo Reino

Is 63,16b-17.19b; 64,2b-7

Sl 79

1Cor 1,3-9

Mc 13,33-37

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