10 de Dezembro de 2016

Contemplando a Imaculada com os irmãos Cartuxos.

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Imaculada – 2016 –Ser de Jesus por Maria–

Meus queridos irmãos: Ao celebrar a festa da Imaculada, nossa alegria nos leva a pensar que, por Ela, temos Jesus, o nosso Caminho, Verdade e Vida (Jo 14,6). Mas ainda que Ele seja a causa de nossa suprema alegria, de nossa confiança, quem não fica por vezes como que magoadozinho ante as nossas fragilidades cotidianas?

Mas isso não deveria ser assim, pois não ficamos sozinhos ante Deus com nossas limitações: temos Maria. Já os Padres da Igreja gostavam de fazer o paralelismo Adão-Eva em relação a Jesus-Maria, como o mais oportuno para compreender até que ponto era conveniente que pelo caminho que os homens se afastaram de Deus, por ele mesmo voltassem.

Os méritos de Cristo, sem dúvida, nos bastariam tanto para ser salvos, como para lutar pela vida que almejamos, mas para não ficar com o desejo de ter um modelo completamente humano que estreitasse a nossa união com Ele. Deus Pai nos concedeu a Imaculada, a associada a seu Filho na obra da redenção, como nos diz o Concílio (cf.LG 58). Um dos santos que soube constatar essa necessidade dum modelo próximo foi São Bernardo; ele nos alenta:

“Recorre a Maria! Porque se acha a humanidade pura em Maria, não só pura de toda contaminação, mas pura de toda mistura de outra natureza. Não me cabe a menor dúvida: será ouvida Ela também a teu respeito. Ouvirá sem dúvida o Filho à Mae, e ouvirá o Pai ao Filho”. E exorta logo Bernardo: “Filhos amados, esta é a escada dos pecadores, esta é a minha maior confiança, esta é toda a razão da minha esperança” (PL 183,441-2).

Na comemoração da Imaculada o nosso coração se alegra por contemplar Nela a figura todo humana, mas também tota pulcra de Maria pela graça dos méritos antecedentes do Redentor (cf.Oração da festa).

Sim, temos Maria como Mãe para o bem, do mesmo modo que tivemos uma outra mãe no Éden que nos levou à morte; por isso os olhos de gerações e gerações de cristãos a invocaram consolados dizendo-lhe: “Ad te clamamus, exules filii Evæ. Ad te suspiramos gementes et flentes, in hac lacrimarum valle”.

Mas a devoção mariana é vivida de formas diversas na Igreja; na Cartuxa, p.ex., seguindo os Estatutos, a vivemos principalmente com a recitação do seu Ofício e com a reza do Ângelus, no qual podemos renovar-Lhe a nossa consagração. Desejo aproveitar, pois, esta festa para aprofundar nessas duas práticas marianas.

Do Ofício de Nossa Senhora, sabemos que tem sua origem lá no século X; começou a ser recitado aos sábados, dia dedicado a Maria. Passou a ser cotidiano entre os monges ao longo do século XI, junto do Ofício Divino. Assim, já era rezado entre os Cônegos de São Rufo quando dois deles, Estêvão de Bourg e Estêvão de Die, entraram no vale de Chartreuse em 1084, junto com Mestre Bruno. Por isso, tal devoção está presente na Cartuxa desde sua origem. Nos seus Costumes, Guigo menciona o “Ofício de Santa Maria” (Cap. 29,3), mas ficando como devoção espontânea, que só entrou em nossos Estatutos em torno de 1150. De sua qualidade nos diz Dom Jacques Dupont em sua Iniciação à Liturgia Cartusiana:

“Ao recitar este Ofício testemunhamos nosso especial afeto à Santíssima Virgem Maria, presente com maternal vigilância na nossa solidão (Est. 49.12). O fato de que a maior parte das Horas do Ofício da Virgem precedam as do Ofício divino – menos Laudes e Completas –, expressa que nosso culto a Maria nos dispõe à oração propriamente litúrgica: Maria nos conduz a seu Filho. Seu desejo mais profundo é o de gerar espiritualmente a Cristo em nossos corações (cf.Est. 21.12)” (p.84).

Como o sabemos, neste Ofício, ocupa um lugar especial tanto o evangelho da Anunciação, como o salmo 118, que é um eco do fiat de Maria, meditando a Palavra de Deus no seu coração (cf.Lc 2,19). Este longo salmo se deleita na vontade do Senhor do começo ao fim. Com que devoção não o rezaria a Virgem de Nazaré…!

Nossos Estatutos nos falam concretamente desta forma de honrar a Nossa Senhora:

“Além do Ofício divino, nossos Pais transmitiram-nos o Ofício da Bem-aventurada Virgem Maria, do qual cada uma das Horas precede normalmente a Hora correspondente do Ofício divino”.

Passando logo a marcar-nos em que consiste o valor dessa oração mariana com estas palavras:

“Por esta oração, celebramos a perene novidade do mistério de Maria, gerando espiritualmente Cristo em nossos corações” (Est Cart. 49,12).

Para compreender essa geração de Cristo em nós, é bom lembrar aquelas palavras pelas quais Ele, ante os que lhe diziam que sua Mãe e seus irmãos O procuravam, respondeu decididamente: “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?” E o Evangelista sublinha que apontando para os discípulos, acrescentou: “Eis minha mãe e meus irmãos. Pois todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos Céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,48-50).

Na medida em que uma pessoa abre seu coração à Palavra do Pai, Jesus Cristo, Ele mesmo nasce e cresce sempre mais nela e, na sua oração, tal pessoa impetra do Céu a graça para os demais (cf.Jo 15, 7-8;16). É assim como alguém

se faz pai, mãe espiritual de Jesus. Assim se realiza a “perene novidade do mistério de Maria, gerando espiritualmente Cristo em nossos corações”. Seu amor a Deus, Ela o vive amando-nos e colaborando a que Cristo cresça em cada um de nós.

Por essa causa, quando rezamos o Ofício de Santa Maria, fazemos memória da maternidade Daquela que, como afirma o Concílio, “cooperou de modo singular, com a sua fé, esperança e ardente caridade, na obra do Salvador, para restaurar nas almas a vida sobrenatural. É por esta razão nossa Mãe na ordem da graça” (LG,61). Não sem motivo, o hino clássico deste Ofício (Memento, salutis auctor), dos séculos XI-XII, começa fazendo memória da Encarnação, cantando: “Lembrai-Vos, ó Salvador / que quando nascestes / assumiste o nosso corpo / da Virgem sem mácula.” (J.Mª Maestre. Revista de Estudios Latinos, 11, 2011. Pp. 117-161. Nota 38).

Mas tal memória deve ser sincera, levando-nos a imitar nossa Mãe. Não hesitemos: a oração dos discípulos no Cenáculo foi norteada pela que viam em Maria. Por isso, como volta a afirmar o Vaticano II, a Igreja Nela “contempla a sua santidade misteriosa e imita a sua caridade e, cumprindo fielmente a vontade do Pai, torna-se também, ela própria, mãe, pela fiel recepção da Palavra de Deus” (Id.,64).

E junto com o Ofício Parvo, nossos Estatutos nos animam a saudar a Maria com o Anjo, em honra da Encarnação do Verbo, ao dizerem:

“Imediatamente depois de Laudes, dá-se um triplo toque, para que cada um reze três Ave-Marias, em veneração da Encarnação do Senhor; o mesmo fazemos de manhã, ao meio-dia e à tarde” (Est Cart 46,4).

Como dizia S. João Paulo II, “sempre que a Igreja penetra mais profundamente no insondável mistério da Encarnação, ela pensa na Mãe de Cristo com entranhada veneração e piedade” (RM,27). Ao rezar o Ângelus, não só é uma ótima ocasião para lhe pedir de todo coração que interceda por nós agora e na hora de nossa morte, quanto para renovar-Lhe a nossa consagração, ou como dizia o mesmo Papa seguindo a São Luís M. G. de Montfort, para renovar a nossa consagração “a Cristo por mãos de Maria, como meio eficaz para viver fielmente o compromisso do batismo” (RM,48). O Diretório sobre a piedade popular e a liturgia (Santa Sé, 2002), nos diz desta consagração:

“À luz do testamento de Cristo (cfr. Jo 19,25-27), o ato de consagração é, de fato, reconhecimento consciente do lugar especial que Maria de Nazaré ocupa no Mistério de Cristo e da Igreja, do valor exemplar e universal do seu testemunho evangélico, da confiança em sua intercessão e na eficácia da sua proteção, da múltipla função materna que Ela exerce, como verdadeira Mãe na ordem da graça, em favor de todos e de cada um de seus filhos” (n. 204).

Trata-se, portanto, de uma entrega, de uma doação a nossa “Mãe singular” (Est Cart 34,2), destinada a viver melhor nossa consagração batismal a Deus. Mas, que fazer para renovar-nos de verdade em tal consagração? A este respeito gostaria de transmitir-vos um conselho do célebre mártir São Maximiliano M. Kolbe; diz assim:

“Sei por observação e por experiência própria que negligenciamos e nos esquecemos de muita coisa e por isso temos que as relembrar com frequência. Rezamos o ato de consagração diariamente, mas verificamos que a vida não corresponde à consagração. Que fazer para avivá-lo? É bom renovar esse ato antes das dificuldades mais importantes, pelo menos com o nome: Maria!

E ainda há uma maneira. Cumprindo bem as nossas tarefas, não há tempo [às vezes] para as jaculatórias. Mais prático será fazer um acordo com a Mãe de Deus: que quantas vezes eu voltar àquilo que faço, tantas vezes isso corresponderá a uma repetição da minha consagração”. O santo nos estimula aqui a alicerçar a nossa entrega não apenas em palavras, mas em atos, e acrescenta:

“De cada vez, aquilo que houve, aquilo que há e aquilo que haverá, tudo isto é propriedade Sua. Um tal acordo é importante, e vocês verão o resultado: sente-se simplesmente a presença da Imaculada junto da alma. Vivamos o momento presente. Nós não sabemos o que virá, Ela sabe. Esquecendo onde, o quê e quando, deixemos, que Ela nos conduza”. E conclui o mártir:

“Esse é o mais elevado cume da perfeição. A alma não se inquieta com aquilo que aconteceu ou acontecerá, mas deixa-se conduzir pela Imaculada. Esse é o meio prático de manter a continuidade dessa consagração. Confiemos-Lhe isso, para que Ela nos ensine como se faz” (Conferências de S. Mx. M. Kolbe, n. 226, p.387).

Que força o testemunho vivo deste homem de Deus que, como seu conterrâneo S. João Paulo II, soube abrir de par em par seu coração a Cristo por meio de sua entrega a Maria.

Jesus nos conceda hoje – a seus membros místicos – ser formados também por Ela, como antes o foi Ele mesmo na casa de Nazaré.

Que assim seja! Amém, amém, aleluia!

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