“…nós rezávamos e chorávamos… pois éramos curados por meio daquele que achávamos que precisava de cura…”

Por pe. Éder Carvalho Assunção – Missionário da Prelazia de Lábrea no Corno Africano [email protected]

Leitura Orante:

Jó7,1-4.6-7 / Sl 146 / 1Cor9,16-19.22-23/Mc1,29-39

Curados para Servir

Em cada Eucaristia somos convidados pelo Senhor a fazer uma experiência de “cura interior”.

  1. É ele que vem ao nosso encontro, a decisão de amar é dele;
  2. É ele que e estende a mão;
  3. É ele que ajudar no processo de “levantar-se”;
  4. É ele que faz a febre desaparecer;
  5. É ele que ensina a servir.

Aqui encontramos alguns passos necessários na vivência da “cura interior”:

  1. É necessário aceitar a vontade de Deus e esperar com confiança “a sua aproximação”. Quando saímos desesperadamente atrás de “curandeiros” expressamos nossa “desconfiança” para com Deus e “duvidamos” do seu amor. Inclusive muitos católicos “correm quilômetros” atrás do padre curandeiro e da “famosa missa de cura e libertação”, desconfiando assim, da presença real de Jesus na Eucaristia na missa presidida pelo seu simples padre em sua comunidade eclesial, na mesma rua de sua casa. Como se o Mistério da Eucaristia, que cura e liberta, dependesse do mandato do “padre curandeiro”. O primeiro passo, portanto para cura interior é ter uma fé provada, capaz de esperar e sofrer “as demoras” de Deus.
  2. É necessário contemplar a mão de Deus estendida nas muitas mãos que nos acariciam e nos abraçam ao longo da nossa vida. Sentir-se amado, cuidado, zelado por Deus, no amor, no cuidado e no zelo das pessoas que fazem parte da nossa história. Imagine a mão estendida de nossos pais enamorados por nossas mães. Imagine a mão de nossa mãe nos acariciando repetidas vezes em seu ventre. Imagine a mão da parteira que nos ajudou a nascer. Imagine a mão do nosso pai que nos ensinou a dar os primeiros passos. Imagine a mão de nossa professora que nos ajudou a riscar nossas primeiras letras… imagine e reze com estas mãos estendidas… aqui temos um verdadeiro processo de cura das dores de nossa alma.
  3. É necessário também, perdoar as mãos interesseiras que nos empurraram nos abismos existenciais, nas mãos que nos profanaram, nas mãos que nos machucaram. É preciso entregar a Deus os traumas e, se eles nos derrubaram, mais uma vez a “mão de Deus” veio nos levantar. Só quem foi derrubado, só quem caiu, conhece a experiência do toque restaurador da mão que nos ajuda a levantar e assim, vivenciar a experiência pascal.
  4. É necessário deixar sarar e cicatrizar todas as feridas e assim, a febre vai embora. Reabrir as feridas a cada dia é uma decisão errada, é fechar-se ao processo de cura. Não esquecemos as ofensas recebidas, porém ao se levantar, posso olhar para ela de cima para baixo, e confirmo que elas são inferiores ao amor que eu tenho no peito, ao Amor que me regatou no altar da Cruz.
  5. É necessário servir, servir, servir. Quando nos tornamos os pés que se aproximam, as mãos estendidas, as mãos que sustentam, as mãos que eliminam as febres… na vida do outro, temos então um “sacramental” da cura interior recebida da Divina Providência. Quantos que foram curados fisicamente e hoje são pessoas incapazes de amar… onde está o milagre? Permitam-me testemunhar:

Entre as minhas muitas andanças na Amazônia, uma vez encontrei um homem com um câncer na garganta… sofria dores terríveis e no calor amazônico, em seu tapiri seus filhos se revezavam em abaná-lo, noite e dia. Quando conversávamos não entendia nada, pois apenas emitia alguns sons, já não mais audíveis por causa da doença, porém sua esposa, tudo compreendia e traduzia… e assim “conversávamos”… e na oração… ele apenas pediu… deixe eu cantar… ele murmurou e aqui todo mundo entendeu… pela melodia… “há um barco esquecido na praia”… nós rezávamos e chorávamos… pois éramos curados por meio daquele que achávamos que precisava de cura… e ele pediu que este canto fosse entoado em seu velório… e assim ele celebrou a sua páscoa… num grande milagre: a cura interior.

Como Paulo, posso dizer que anunciar o Evangelho é a nossa maior experiência de cura, pois somos “tocados” a todo o momento por aqueles que ninguém quer “tocar”. Na missão encontramos a maior terapia e a maior “experiência de oração”. Como Jó enxergamos o sofrimento como a dor de parto, uma dor necessária que gera a vida. Como o salmista, louvamos a Deus porque ele é bom.

As curas físicas também são dons de Deus, são frutos de sua bondade. Porém, a cura das dores da alma é o grande tratamento existencial do cristão. A saúde pode nos faltar e mesmo assim, estaremos na barca de Jesus. Aqueles que buscam somente a saúde, quando esta falta, logo abandonam a “barca”. Pode nos faltar tudo, inclusive a saúde, a única coisa que não deve faltar em nós é a capacidade de amar.

 

 

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