Leitura Orante: Solenidade de São José

O sol de meio dia raiava esplêndido sobre o Purus quando ao longe, avistou-se uma canoa baixando de bubuia no meio do rio. Seu José, com a vista cansada; efeito dos anos sob o sol, por vezes na agricultura de várzea e na pesca, ou abrindo roçado na terra firme; acredita ver um manto azul e logo grita:

– Conceição, traz o remo que vou ali espiar uma canoa que vai baixando.

– E por acaso a canoa é tua, inxirido!

Responde a mulher toda enrolada, tentando torcer a rede que tinha lavado com a água da chuva e que tava mais pesada que peixe-vaca na engorda. José, chama uns nomes lá pela sala, veio pisando forte, as panelas penduradas na parede de paxiúba, faziam mais barulho que os sinos da Igreja de São João Batista de Canutama, chegou na cozinha, pegou o remo e desceu a praia pra pegar sua canoa. E tome remo na travessia. Ao se aproximar da canoa, encontra uma criança, que devia ter uns onze anos de idade, coberto com um lençol azul, que logo, diz:

– Seu Moço, a tua benção! Não aproxima não, sou leproso! Meu pai me colocou nesta canoa, pois o coronel de barranco disse que se eu ficasse lá ele iria apoitar nossa família inteira no meio do rio e não deixou meu pai, nem mesmo, fazer um tapiri no aceiro da praia.
José, com os olhos cheio d’água, pois era mais mole do que curtiça, diz pro menino:

– Qual é o teu nome?

– Manoel – Respondeu acanhado.

– Vou te levar lá pra casa, onde come dois come três, e tua doença, se preocupe não que a Muié reza que é uma beleza. Deus sempre a escuta quando recorre a São Francisco e São Sebastião, mas é numa devoção de uma história contada por Jesus no Evangelho, a do pobre Lázaro, que o povo hoje chama de São Lázaro, que ele recorre pra este mal que tá na tua pele. Depois ela completa com uma ladainha em latim pra Nossa Senhora, Mãe de todos nós! [ao falar o nome da Virgem, ele tira o chapéu e se benze] Ninguém entende nada, uns palavriados mais estranhos que um bando de ciganas no gapó. Parece que Deus gosta, pois muita gente sai de lá bonzinho pela graça de Deus.

Assim, José reboca a canoa de Manoel até a beira. Há mais de dois dias o menino baixava o rio, ainda bem que sua mãe tinha colocado um alqueire de farinha, umas carnes de queixada salgada e dois cachos de banana. Porém, o menino estava todo queimado, e suas chagas ferviam nas mãos, nos pés, nas pontas das orelhas. Se não fosse aquele manto azul, teria morrido de insolação. Envergonhado e sem forças, ficou sem jeito quando José lhe estendeu a mão e o ajudou a sair da canoa.

Verão amazônico, o barranco na frente do Catolé dava uns cinco minutos de subida no sol quente. Com muita dificuldade, chegam na barraca e Conceição grita de longe.

– Salve meu São Lázaro! O que fizeram com esta criança?

Descendo pegou o menino e o levou para o banheiro para tomar banho e limpar suas feridas. Sabia da gravidade e do risco que estava passando, pois nestes idos dos anos 40, ter lepra era assinar a certidão de óbito da vida social.

José e Conceição não tinham filhos, mas a casa era sempre rodeada de vizinhos e parentes que buscavam a reza da Conceição e os festejos que ela fazia no dia de São Lázaro. A cachorrada fazia a festa, comida boa. A primeira rodada era sempre canina.

Entretanto, a notícia logo se espalhou, pois no beiradão a comunicação boca-orelha faz inveja a qualquer internet. Todos se afastaram, com o medo e preconceito. Nem o regatão parava mais no porto. A acolhida de Manoel trouxe sérias consequências!

Com o coração de Pai, José amou Manoel, e sua mãe Conceição. Humilde fazedor de canoa, trabalhava dia e noite. Teve a ideia de deixar as canoas prontas do outro lado do rio, com uma placa de “vende-se” que tinha caído de uma Chata. As pessoas deixavam o dinheiro dentro de uma garrafa amarrada num cipó e assim, ele conseguia um pouco de dinheiro. Ele gritava para os vizinhos quando subiam na “fáina” e deixava o dinheiro na garrafa, assim eles traziam café, açúcar e sal, às vezes umas garrafas de pinga, pois ninguém é de ferro.

Quando frei Inácio passou na desobriga não excluía a casa de ninguém, acolhia todos com amor e carinho. Era Festa de São José e logo de manhã, seu canoão, o famoso Santo Agostinho encostou na beira. Seu Zé se adiantou desceu o porto correndo e explicou, mais desconfiado que veado baleado, a situação ao frei, esqueceu até de tomar a benção:

– Ei Frei. Tudo bem? Bem-vindo! Só que agora não sei se o senhor vai querer subir, pois temos um filho com aquela doença véia feia.

– Quero mesmo! Deus é bom meu filho! Ele é um pai amoroso!

Respondeu o frade.

Na desobriga tudo diferente, pois nenhum dos vizinhos apareceu. Mas a família: Conceição, Manoel e Zé, mais o Abinaide, comandate do canoão, rezaram uma bonita missa pra São José. Depois, na hora do almoço, uma deliciosa caldeirada de tambaqui, o frei disse à Família.

– Meus filhos, hoje temos uma família de Nazaré aqui. Um pai que ama, que protege o filho, uma mãe que reza, que cuida. Um filho chagado, como o Cristo, desprezado, abandonado no meio do rio. Hoje, Zé, tua vida me ensina a cuidar do Menino Deus presente em cada criança. Tu, Maria, me ensinar a rezar e confiar mais. Agora, tu, Manoel, em ti vejo o “Emanuel” que nos chama a cuidar das feridas da humanidade. Não apenas ajudar e sim, acolher, limpar, e o mais bonito, dizer: tu és o meu filho. Tem um conto antigo que diz que na viagem para o Egito, quando São José salvava o Menino Jesus e sua Mãe, o sol estava muito quente! São José, tirou seu manto azul e cobriu Nossa Senhora e o Menino. Nesta sombra tiveram o alento necessário para chegar bem no fim da viagem. Enquanto, José, chegou nas bombas, todo queimado, mais vermelho que bico de pipira, entretanto, feliz da vida, pois amou e cuidou.

Zé e Conceição, olhando pela janela, viram o manto azul estendido no varal, aquele mesmo que cobriu, sinalizou e salvou o seu Manoelzinho, que agora é a alegria da casa. E as lágrimas não se conteram, caíram como chuva de gratidão.

Por Pe. Éder Carvalho Assunção

Uma leitura orante da Liturgia da Palavra da Solenidade de São José
2Sm7,4-5ª.12-14.16 / Sl88 / Rm4,13.16-18.22 / Mt1,16.18-21.24

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