Leitura Orante: 4⁰ Domingo da Quaresma

Diquinha chega correndo do roçado e grita lá do pé de abacaba:

– Mamãe, o pai foi picado de inseto, acho que era uma surucucu.

– Valei-me minha Nossa Senhora de Nazaré! Pega aqui minha filha a pedra preta que o Frei Henrique deixou, e coloca sobre a picada e amarra, eu não posso ir lá, tô buchuda, ele não pode nem escutar minha voz.

A menina, mais esperta que jaçanã corre ligeiro e faz como a mãe mandou. Logo chega o cumpadi Bastião que escutou todo o furdunço e leva o Cesário, mordido de inseto, pra sua casa.

Passaram-se algumas horas e a pedra caiu, a mordida desinchou e o homem que por hora não falava coisa com coisa, parecendo coroca com dor de cotovelo, volta ao normal e diz:

– Cumpadi, se não fosse esta pedra preta deixada por aquele padre bruto, eu tava no sal uma hora dessa, pois descer daqui das cabeceiras do Cuxuduá até a cidade, seria mais de três dias de viagem. Acho que agora vou pra casa.

– De jeito nenhum!

Exclamou o Bastião:

– Rapaz, tu lembra quando padre contava, que Moisés mandou levantar a surucu numa vara lá no deserto e pediu pro povo pedir a Deus a cura. Então, isto era uma superstição que o povo já tinha, mas Moisés disse pra não adorarem a serpente, mas o Deus de Abraão. Cê sabe que povo aqui diz que muié buchuda não pode ver ninguém picado de inseto. Portanto, calma o facho e depois de uns dias tu volta pra casa. Cê sabe, nós aqui não temos doutor e temos que ouvir os conselhos que os antigos nos deixaram.
Nazário, meio encabulado feito macaco da noite, responde:

– É verdade. Bora se recuperar por aqui, assim dou um descanso pra Maria que anda aperreada com as crianças. Sabe, cumpadi, Jesus foi elevado na Cruz como aquela surucucu no deserto, morreu como um maldito pra nos salvar. Hoje, todas as vezes que o pecado nos morde, temos a Confissão, que é nossa pedra preta espiritual, para tirar o veneno do pecado de nossas veias. Ainda bem, que na semana que vem tem desobriga!

Assim aconteceu, passados três dias, Nazário volta pra casa bonzinho da silva e logo pega a espingarda pra caçar, afinal, temos que fazer a boia pra desobriga. Maria logo grita:

– Home, tu foi picado e já vai de novo. Tá doido, abestado!

– Larga de leseira, muié. Ainda não sabe que o que nos protege é a graça de Deus e não o fazer do home. Quem disse foi o frei Cassiano no dia do nosso casório, diz ele que leu isso na tal Carta de São Paulo aos Efésios. Por isso, eu me benzo: “São Bento água benta, Jesus Cristo no altar, bicho mal abaixa a cabeça pro filho de Jesus Cristo passar”.

Antes de anoitecer aparece Cesário gritando pelo povo, pedindo gente pra ajudar a carregar a anta que ele acertou lá no barreiro do Carará. Festa garantida, facas pra amolar, água pra ferver, panela emprestada pra cá, bacia trazida de lá. Rapidinho a anta tá preparada pro dia seguinte. Dia de missa, confissão e primeira eucaristia da Diquinha.

Por volta das 7h da manhã o motor do padre começa a zoar, as galinhas e os porcos correm pra mata, com medo do padre, pois aqui no beiradão, barriga de padre também é cemitério de galinha. Mas hoje a bicharada correu à toa, pois a boia vai ser a anta do Cesário. Logo, aparece uma cabeça branca na proa do batelão e a
Maria diz:

– Olha lá home, é o bispo, Dom Jesus, cabeça branca. Parece uma garça sentada no toco.

A molecada se diverte com as gargalhadas, na expectativa dos bombons. Viram também que além do bispo veio a Irmã Cleusa e o seu Arigó, o comandante. Seja bem-vindo, oh lê lê, seja bem-vindo oh lá lá, como sempre, não tinha outra música de acolhida. Irmã Cleusa abraça as crianças, as mulheres, Dom Jesus tira da mala um saco de bombom e assim a alegria foi completa.

O bispo diz logo:

– Confissão às 8h e missa às 9h!

– Tá bom, frei Jesus, sua benção!

Responde dona Mariquinha, matriarca da comunidade.

Na missa, Dom Jesus falou da liturgia da Palavra do quarto domingo da quaresma e como sempre, durante a homilia deixou o povo partilhar sua experiência da Palavra.

Cesário logo se prontificou em falar:

– Sabe, dom, fiquei emocionado em escutar na primeira leitura que o povo zombou dos enviados de Deus e foram parar lá na Babilônia. Aqui também, foi a mesma coisa, tinha muita gente que mangava da Irmã Cleusa quando nos dizia que nós devia nos organizar, rezar e lutar por manter nossa floresta de pé. Muitos destes, abandonaram a fé e a luta, e tão lá por Lábrea, passando dificuldade, com os filhos nas drogas. Sabemos que Deus não se vinga, ele é amor. São as nossas escolhas erradas que nos levam a perder nossa terra, nossos valores e nossa dignidade.

Dos olhos de Irmã Cleusa lágrimas de gratidão se derramaram.

Seu Bemozinho, que quase num fala, levantou a mão, pediu licença e disse:

– Eu vim lá do Juruá, na época da sorva, passei o pão que o diabo amaçou, sofri. Chorei, pois escutei, no radinho de pilha, um programa de recados da Rádio Nacional que meu pai e minha mãe tinham falecidos de tiriça. Fiquei triste, tive uma saudade danada, vontade de voltar pra minha terra, do mermo jeitinho que cantou o salmista hoje. Mas Deus e Nossa Senhora, me deram força e hoje, meu tapiri, este igarapé, esta comunidade da Paxiubinha são a minha Jerusalém. Pois a graça de Jesus está aqui.

O bispo e a freira, perceberam a profunda espiritualidade daquele povo, que de maneira simples evangelizavam com a vida. Terminada a missa, a primeira mesada de comida boa, como manda a tradição, foi pro bispo, pra freira e pro comandante: picadinho de anta, costela assada, caldo de tambaqui, farofa de farinha branca, farinha d´água e pra completar um delicioso açaí. Depois veio o futebol, as crianças foram pular n´água e o bispo e freira subiram nas casa, batendo papo, matando pium e mutuca, e tome café, café e café.

Por Pe. Éder Carvalho Assunção
Missão Cuxiuara
Uma leitura orante da liturgia da Palavra – 4° Domingo da Quaresma B
2Cr36,14-16.19-23 / Sl136 / Ef2,4-10 / Jo3,14-21

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