Irmã Cleusa – Lábrea celebra o 30º ano do seu martírio

Lábrea, cujo céu e cenários da selva amazônica foram às únicas testemunhas do martírio de Irmã Cleusa (Missionária Agostiniana Recoleta – MAR), no ano de 1985 às margens do rio Paciá, celebrou como “Igreja Viva” a memória de seu martírio em favor da justiça e da paz por amor aos povos indígenas.

Motivados pela alegre notícia que nos trouxe Irmã Myrian del Carmen (Superiora Geral das MAR), em sua recente visita a Lábrea, de que segue em andamento o processo de canonização da Serva de Deus Ir. Cleusa decidiu-se que este ano faríamos um Triduo de Oração em preparação ao 30º aniversário de seu martírio, sendo que a motivação inicial desses 30 anos, além de celebrarmos sua memória, seria levar nosso povo a rezar pela sua beatificação e canonização.

Tais motivações foram bem acolhidas pela Comunidade das Irmãs Agostinianas de Lábrea, como por todas as comunidades eclesiais de bases de nossa paróquia. Sendo assim, definiu-se que o triduo aconteceria por setores da paróquia, o que foi uma grande novidade nesses 30 anos em que celebramos a memória de Ir. Cleusa.

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A estrutura do tríduo que foi organizado por Marcelo Viana, que este ano coordenou os preparativos dos 30 anos juntamente com as coordenações das comunidades e as Missionárias Agostinianas, foi trabalhado a partir daquilo que se tem e é fato sobre a vida de Irmã Cleusa. Para tanto se utilizou como base o opúsculo sobre sua vida, elaborado pela Congregação das MAR, e as orações para alcançar sua beatificação e canonização, foram tiradas de um tríduo que foi elaborado por Carlos José Fernandes, de Vila Velha (ES) em 1994, com aprovação eclesiástica.

A dinâmica estrutural do triduo faz recordação da vida de Ir. Cleusa com participação ativa do povo intervindo nas respostas sobre suas atitudes e virtudes admiráveis. Também se definiu que em cada noite, se apresentaria um testemunho de convivência sobre sua vida ou de graças alcançadas por pessoas que atribuem a ela e assim acreditam.

Sugeriu-se que na medida do possível, as comunidades utilizassem os cantos que Elias Souza (escritor, poeta e compositor labrense de coração) compôs, observando aspectos litúrgicos, para as missas em memória de Ir. Cleusa.

A abertura do tríduo aconteceu no dia 25 de abril, na Igreja Nossa Senhora Aparecida – setor I. Neste primeiro dia refletimos o tema: “Cleusa, a Serva de Deus”. Padre José Lauro Gonçalves presidiu a Eucaristia, concelebrando com os freis Agostinianos: René González e Geraldo Inácio (OAR).

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Como foi mencionado no comentário inicial fomos felizes em celebrarmos a memória de Ir. Cleusa neste tempo privilegiado da Páscoa, pois a liturgia desses dias nos ajudou a visualizar o quanto seu testemunho de fé é autêntico e nos ajuda em nosso seguimento a Jesus Cristo e sua Igreja, ela que em sua vida optou pelo Evangelho e testemunhou sua fé em Cristo ressuscitado até a morte.

Em sua homilia, o Pe. José Lauro enfatizou que “se Ir. Cleusa não tivesse compreendido a missão do Bom Pastor, talvez ela fosse apenas só mais uma religiosa lembrada apenas pela sua Congregação”. Assim, ao ressaltar a mensagem do Papa Francisco para o dia Mundial de Orações pelas Vocações – 2015, o mesmo afirmou que a mensagem sem dúvida também faz referência a Ir. Cleusa, pois ela compreendeu que “a vocação cristã é um chamado de amor que atrai e reenvia para além de si mesmo […], e que a oferta da própria vida em atitude missionária só é possível se formos capazes de sair de nós mesmos” (Papa Francisco).

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Nessa primeira noite do tríduo, Maria do Perpétuo Socorro de Souza (52), mais conhecida como “Mariinha” deu um testemunho de convivência de Ir. Cleusa, que cuidou com bastante zelo e amor de seu pai quando o mesmo encontrou-se muito doente vítima de uma picada de cobra. O mesmo veio a falecer em Porto Velho (RO), mas sua família nunca se esqueceu do conforto e auxílio que ela prestou-lhes naquelas condições difíceis daquele tempo. O testemunho foi acolhido com uma salva de palmas.

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O segundo dia do tríduo aconteceu no domingo (26), na Catedral Nossa Senhora de Nazaré, setor II, sob o tema: “Cleusa e suas santas virtudes”. A Eucaristia foi presidida por Fr. José Garcia e concelebrada pelos freis René González e Geraldo Inácio.

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Nesse domingo do Bom Pastor, ao fazer sua homilia, Fr. José enfatizou que “Ir. Cleusa soube seguir os passos do Bom Pastor no seu seguimento e despojamento por causa do Reino… Ela é figura do Bom Pastor porque soube cuidar das ovelhas pobres, doentes e desprezadas… Ela deu a vida por suas ovelhas…”.

Nessa noite, a comunidade pode ouvir o testemunho de Eliethe Pereira Quintino (42), sobre a recuperação gradativa de seu irmão João Quintino (que ajudou na busca do corpo de Ir. Cleusa), que após a morte do pai, em 1989 entrou num quadro de depressão esquizofrênico por seis anos, no qual ele se isolou completamente da família e do mundo, passando a viver trancado em seu quarto sem se comunicar com ninguém e nem fazer suas necessidades de higiene corporal.

A família temia que numa situação dessas, em que João passara seis anos sem tomar banho, sem trocar de roupa, deitado numa cama, fazendo as necessidades fisiológicas no chão do quarto e vivendo em condições de isolamento, que no mínimo seu corpo estivesse cheio de feridas. Mas mesmo assim eles sempre rezaram bastante pela sua recuperação e saúde recorrendo a Ir. Cleusa, embora ela não seja declara santa oficialmente pela Igreja.

Passados os seis anos de isolamento, Joãozinho, como a família o chama, saiu do quarto sem nenhuma enfermidade externa em seu corpo, o que causou admiração e espanto nos familiares. E, mesmo que timidamente, como ele sempre foi já usufrui do convívio da família, e acreditam que foi uma graça que eles alcançaram – Afirmou a irmã.

O terceiro dia do tríduo aconteceu segunda-feira (27), na Igreja São Francisco, setor III, sob o tema: “Cleusa e a doação de sua vida”. A Eucaristia foi presidida por Fr. Jesus Cortéz e concelebrada por Fr. José Garcia.

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Em sua homilia, Fr. Jesus enfatizou que é perceptível como o testemunho de Ir. Cleusa pôde ser confrontado com a liturgia da Palavra durante o tríduo, e mediante o Evangelho do dia afirmou que: “Cleusa foi ‘pastora’ e ‘porta’. Pastora porque soube cuidar daqueles que ninguém queria cuidar e porta porque soube levar e atrair muitas almas para Deus”.

O testemunho desse dia foi dado por Samara Said da Silva (26), que emocionada afirmou que sua vida mudou desde quando “conheceu” Ir. Cleusa há cinco anos, na comemoração dos 25 anos de seu martírio, pois a partir daí soube enfrentar várias tribulações graças ao seu testemunho, e com sua fé renovada ela alcançou muitas graças e favores em sua vida.

O tríduo de oração culminou com a celebração de memória do martírio na última terça-feira (28), que tradicionalmente é celebrado com uma caminhada de oração que sai da Catedral até a Igreja Nossa Senhora de Fátima, onde se encontra o túmulo de Ir. Cleusa.

A celebração iniciou as 19h00min na Catedral, onde a comunidade maravilhou-se com a entrada do banner de Ir. Cleusa dentro de uma canoa iluminada e enfeitada com flores tendo à popa o Círio Pascal. Cantava-se o mantra “vale a pena arriscar-se”.

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O grupo de adolescentes da Comunidade São José, interpretou em forma de jogral a poesia “Mãe Cleusa”, de autoria de Marcelo Viana e em seguida saímos “caminhando com Cleusa” na estrada da vida, na estrada de Jesus, para celebramos a Eucaristia.

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Essa caminhada tem sido ao longo dos anos uma grande expressão de fé do nosso povo que deseja manifestar que Cleusa vive e seu testemunho continua vivo no meio de nós e nos impulsiona a vivermos a autenticidade de sua fé. Por isso refletimos as páginas de sua vida, rezando, cantando e caminhando… É válido enfatizar que este ano, a faixa temática da caminhada foi confeccionada em estopa trabalhada como um artesanato indígena em seus detalhes.

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Ao chegarmos a Igreja Nossa Senhora de Fátima, fomos acolhidos com muita alegria pela comunidade que lá estava, e seguiu-se a liturgia que foi presidida por Fr. José Garcia e concelebrada pelos freis René González e Geraldo Inácio.

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Referindo-se a Ir. Cleusa em sua homilia, Fr. José afirmou que ao caminhar refletindo sobre sua vida, destacou-se como ela viveu seguindo o Evangelho, logo a liturgia se aplica a ela. Disse que ela acompanha com seu testemunho a vida da Igreja na Prelazia de Lábrea e sem dúvida gostaríamos de ser essa Igreja samaritana como ela foi. Disse ainda, que embora não possamos rezar a ela publicamente, espera que logo possamos tê-la reconhecida pela Igreja como Santa, uma vez que sua mensagem incomodou muitas pessoas e a Igreja tem que ser anunciadora da verdade. Complementou dizendo que Ir. Cleusa morava muito perto de Deus, e sempre se colocava diante Dele do Sacrário, ela deu a vida pela fé e experimentou o que diz o Evangelho: Ela não se perdeu e sua vida é um trunfo para a vida da Igreja. Finalizou afirmando que não podemos esquecer nossos mártires.

Elias Souza homenageou mais uma vez a Serva de Deus com a mensagem: “Celebrando a Deus com Ir. Cleusa”, de sua própria autoria, na qual afirma: “É por isso que há trinta anos celebramos a Deus com Irmã Cleusa e sua legião de admiradores, não porque a tenhamos como beata nem Santa, mas como mártir, como exemplo de vida e de humanidade a ser seguido. Porque queremos que o seu exemplo permaneça vivo entre nós”.

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Após a missa, todos se confraternizaram com um delicioso cachorro-quente preparado e servido pelas lideranças das comunidades, que foi uma oferta especial da paróquia, das Irmãs Agostinianas e da Escola Santa Rita.

Como foi motivado no ano passado na celebração de abertura das comemorações destes 30 anos, na presença do Cardeal Dom Cláudio Hummes, não temos dúvida de que se celebrou uma grande festa digna da memória de Ir. Cleusa, onde nosso povo que venera sua memória e a ela recorrem em suas necessidades, embora não seja declarada santa pela Igreja, pôde homenageá-la e dar graças a Deus pelo dom de sua vida sacrificada.

Em nome da Paróquia Nossa Senhora de Nazaré e das Missionárias Agostinianas Recoletas queremos agradecer a todas as comunidades dos setores que se empenharam com zelo nos preparativos e celebrações do tríduo e memória, foi bonito ver o envolvimento e esforço de todos em organizar uma bonita e dinâmica celebração.

Agradecemos ao querido amigo Elias Souza, que foi abençoado em sua inspiração ao compor para estes 30 anos, as belíssimas letras e músicas dos cantos de entrada, ofertório e comunhão, e por sua dedicação em contribuir para a divulgação da memória e martírio de Ir. Cleusa.

Agradecemos a valiosa contribuição da Comunidade das Irmãs Agostinianas de Lábrea: Ir. Itárica Zandonadi, Ir. Ana Maria da Silva e Ir. Jocerlane Silveira; a Provincial das MAR no Brasil: Ir. Maria Josefina Casagrande; a Superiora Geral: Ir. Myrian del Carmen; como a todas as Missionárias Agostinianas do Brasil e do mundo que estivemos unidos em oração nesta insigne celebração.

Enfim, somos gratos a todas as pessoas que direta e indiretamente contribuíram conosco. Que Deus nos abençoe a todos e que o testemunho de Irmã Cleusa nos anime cada vez mais a sermos perseverantes e ousados em nossa fé!

Obrigado, Irmã Cleusa pelo testemunho do seu sangue derramado!

 

Marcelo Viana – Coordenador do COMIPA/LÁBREA

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