Dom Jesus Moraza, e a Prelazia de Lábrea

Na segunda parte da entrevista a Jesus Moraza, bispo emérito de Lábrea (AM), centramos a conversa na consciência local de Igreja, na tarefa dos leigos, as vocações, a atenção aos migrantes e jovens, a pastoral da comunicação e as estruturas materiais da Prelazia.

A consciência de comunidade amadureceu na Igreja, no povo da Prelazia?
Estamos nisso. Tem havido avanços significativos, mas ainda tem muita dispersão e desinteresse. As necessidades materiais absorvem muito a atenção das pessoas; a droga e a bebida fazem grandes estragos. Com os meios de comunicação social, o consumismo e hedonismo chegaram forte. Mas a alegria de “servir” vai calando forte em muitas e muitas pessoas, fazendo a diferença em sua vivência diária e em seu compromisso comunitário.

Nesta entrevista já se falou algo da importância dos leigos na vida eclesial. Que tipo de formação recebem ou tem recebido?

Os leigos são nossa principal riqueza e alegria. Uns 3.000 participam de uma forma ou outra, nas diversas pastorais. Durante os nove primeiros anos de minha administração episcopal, no período de férias, tivemos em Lábrea cursos intensivos de formação teológico-pastoral com um número significativo de líderes das quatro paróquias – Pauini, Canutama, Tapauá e Lábrea –. Os cursos estavam divididos em triênios. Depois se deixou a responsabilidade formativa mais às próprias paróquias, dado o alto custo dos cursos em Lábrea e a impossibilidade de atender a mais pessoas. Estes últimos anos se tem investido muito em formação, tanto na época de férias, como por pastorais, enviando leigos em cursos especiais em São Paulo, Manaus ou Porto Velho.

As “desobrigas” são um tipo de atividade caduca necessária? Cabem outras formas de chegar aos ribeirinhos na Prelazia?

A presença do missionário junto ao povo nunca se pode considerar caduca, pois sempre é presença misericordiosa de Deus junto a seu povo e presença do mesmo Jesus para com o missionário através do povo. É grande o enriquecimento, tanto dos missionários como dos ribeirinhos. De qualquer forma posso dizer que a atenção dada aos ribeirinhos melhorou significativamente com a maior presença de equipes de missionários nas comunidades, mesmo que não tenhamos ainda conseguido tornar, como se deseja, uma presença maior da Eucaristia em nossas comunidades. Entre a visita do frei e as visitas das equipes ribeirinhas, do CIMI e CPT, hoje são bastante mais as visitas que se faz do que se conseguia fazer na década de 1970. Agora pensamos reforçar mais as equipes itinerantes, em atitude de “saída”, como nos convida o Papa Francisco, e celebrar com mais frequência a Eucaristia nas comunidades ribeirinhas, como já se está fazendo em algumas das paróquias.

Um dos pontos mais quentes em grande parte da Igreja é a Pastoral Vocacional, devido ao pouco número de vocações sacerdotais e de especial consagração. Como a Prelazia vê este ponto? Atualmente há alguma programação? Que expectativas de futuro? Uma Igreja se considera de maior idade quando tem clero próprio; sempre terão que ser e os agostinianos recoletos, os que principalmente evangelizem em Lábrea?

Acho que o fato de que a Santa Sé, desde 1925, tenha encomendado a Prelazia a nossa Ordem, sempre houve um despiste, deixando um pouco de lado essa responsabilidade de criar o clero próprio para conseguir pouco a pouco a autonomia de recursos humanos. Era mais fácil esperar que a Ordem Agostiniana atendesse a essa necessidade. Sempre tem havido certo compromisso vocacional, inclusive pelo clero diocesano, como se pode ver pela iniciativa de Dom José Álvarez Mácua, que levou uns quantos jovens ao seminário de Cochabamba (Bolívia), mas sem o resultado esperado. Posteriormente se incentivou as vocações, mais direcionadas ao clero religioso; assim tivemos alguns seminaristas em Belém do Pará e Franca (SP), também sem os resultados esperados. Apenas quando se criaram as casas de formação de Guaraciaba e Fortaleza, no Estado de Ceará, se conseguiu algum resultado. Mas não para a Igreja local de Lábrea.

A IX Assembleia Geral da Prelazia, com motivo do Ano Vocacional, celebrada de 3 a 5 de julho de 2003, faz um chamado mais forte a povo de Deus sobre a necessidade da Igreja local. Incentivou-se a Pastoral Vocacional nas Paróquias, e, como resultado, o dia 31 de julho de 2005 inauguramos o Centro Vocacional Frei Jesus Pardo em Lábrea, com a intenção de ter uma grande referência para as vocações do clero local. O Padre Antonio Pego, da Arquidiocese de Vitória (ES, Brasil), foi o primeiro reitor do Centro Vocacional, seguido do Padre Eder Carvalho, já encardinado na Prelazia desde que era diácono. E atualmente o Padre José Lauro, da diocese de Ponta Grossa (Paraná, Brasil). Vários seminaristas, inclusive maiores, passaram pelo Centro e seminários interdiocesanos, sem os resultados esperados. No curso passado tínhamos um teólogo no seminário maior de Manaus e outro em Porto Velho, terminando a filosofia. Recentemente os dois desistiram; um deles a ponto de ser ordenado diácono. Atualmente temos um no primeiro ano de filosofia em Porto Velho. Não podemos desistir. Oração, jejum, penitência e maior empenho e esforço.

Que importância estão tendo os meios de comunicação social, especialmente a internet, na evangelização na Prelazia?

Dia 29 de maio de 1997, festa do Corpo e Sangue de Cristo, pude inaugurar a retransmissora da “Rede Vida de TV” em Lábrea, abençoando as instalações conseguidas por Dom Florentino Zabalza, pouco antes de deixar sua administração episcopal. O mesmo aconteceu com os materiais de uma rádio educativa comunitária em Tapauá, coisas que se concretizaram nos primeiros anos de minha administração episcopal.

A partir de lá se tem incrementado a comunicação através da participação nas rádios comunitárias locais. Ultimamente conseguimos fazer funcionar em Lábrea uma retransmissora da TV Nazaré de Belém do Pará. Também estamos atrás de uma emissora de Rádio FM Educativa que possa alcançar a maior parte do território da Prelazia; a documentação já foi apresentada no ministério das comunicações em Brasília. A Pastoral da Comunicação está funcionando bem em quase todas as paróquias.

Nossa internet é bastante precária, mas também conseguimos abrir uma página WEB da Prelazia, mesmo que tenhamos dificuldade em mantê-la constantemente atualizada.

A migração para dentro e fora da Prelazia é um fato. Em geral que repercussões têm na vida e na pastoral?

Na década de 1980, principalmente, houve um êxodo rural muito grande em nossa Prelazia em consequência da decadência da borracha. Pouco a pouco muitas comunidades ribeirinhas foram desaparecendo, empurradas pelas necessidades de melhor educação e saúde para seus filhos, uma vez que o preço da borracha baixou muito. Nossas cidades se foram massificando sem uma estrutura adequada de acolhida, com o conseguinte desmantelo da família, a perda de raízes e a desestruturação familiar como um todo. Não conseguimos acompanhá-los adequadamente em nossas comunidades das cidades. Alguns encontraram acolhida nas igrejas evangélicas, outros caíram na indiferença, outros ainda voltaram para sua igreja.

Ao falar de uma parcela da Igreja como ao falar de qualquer sociedade, não se pode deixar de olhar o setor dos jovens, nos quais, obviamente está o futuro. Que dados populacionais nos pode oferecer da Prelazia? Como vê futuro dos jovens? Qual é sua preocupação?

Não tenho em mão os dados populacionais, mas posso assegurar que a população juvenil e infantil é muito numerosa.

Futuro de nossa juventude? Mesmo que tenha melhorado as possibilidades educativas em nossa região, como o acesso ao ensino superior e tecnológico, principalmente na cidade de Lábrea, (UEA-Universidade do Estado de Amazonas, IFAM-Instituto Federal de ciência e tecnologia do Amazonas), mas mesmo assim, a formação ainda é muito limitada e o mercado de trabalho na região não oferece muitas possibilidades. A tendência é ter que sair em busca de um futuro melhor nas cidades como Manaus, Porto Velho e outras.

FONTE: http://www.agostinianosrecoletos.org/

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