Cristianismo: uma religião sem “templo”?

Por pe. Éder Carvalho Assunção

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Cristianismo: uma religião sem “templo”?

Uma religião sem templo?

Os três primeiros séculos da Igreja foram marcados pela novidade do Espírito que suscita a “comunidade dos seguidores do Galileu, Jesus de Nazaré”, ele era (é) Deus, porém, gente como agente. Ele deixou a centralidade do templo e “pregava” na periferia, no caminhos dos pobres: agricultores, pescadores, pastores…

Morto no Altar da Cruz e embora “maldito” e “desfigurado”, Ele ressuscita e se torna uma “presença viva” no seio da comunidade. Esta se reunia nas casas ou em pequenos locais comuns, escondidos nas “catacumbas”, não havia “templo”. Uma comunidade livre que tinha na oralidade do “Memorial do Senhor” como regra natural de vida.

Tudo indicava que não havia um desejo de “abandonar o judaísmo” e “ordem pública”. O objetivo era a vivência do Amor Encarnado na periferia de Nazaré.

Eis o MST! Assim era observado?

O MST (Movimento dos Sem Templo) partilhava a vida e, entre os membros não “havia necessitados” (cf. At2). Este modo de vida questionou o legalismo judaico e o sistema opressor dos romanos. Assim, começa a grande perseguição romana na década de 60 e se estende até o século IV. Milhares de cristão foram hostilizados, pois apresentavam simplesmente, um rio de água viva que fazia surgir oásis nos áridos desertos da existência humana (Cf. Ez47,1-2.8-9.12).

Da adoração do edifício ao Edifício da Adoração.

Hoje em meio aos mega-templos religiosos, o chicote de Jesus continua profético (Cf.Jo2,13-22). Quando o cristianismo foi transformado em cristandade pelo Império Romano, onde o ser cristão deixou de ser uma opção para ser uma imposição… o que pensou o imperador? “Edifiquemos templos de ostentação… precisamos edificar na terra algo que se assemelhe à glória de Deus, ou melhor, a glória do nosso império”… Tenta-se hoje dá uma nova roupagem a estas edificações, mas no fundo… no fundo, a “síndrome da Torre de Babel” é uma doença incurável no coração dos tiranos políticos e religiosos.

Da essencialidade da vivência do Evangelho aos projetos faraônicos. A fé antes vivenciada agora é ostentada. Infelizmente no meio católico, hoje em dia, encontramos comunidades que giram em torno do templo, criticamos os outros templos religiosos, porém, temos a mesma doença: “a síndrome da torre de babel”. Achamos que com nosso edifício chegaremos ao céu…

A mídia católica gira em torno da construção de templos. O capitalismo gira em torno das construções dos seus templos, que são mais frequentados que os templos religiosos. Após o templo construído, agente diz, olha como o nosso povo tem fé. Olhamos tanto pra torre que esquecemos de olhar pra quem dorme todos os dias nas calçadas da mesma edificação. Olhamos pra torre e não pensamos naquele católico que não tem uma roupa à altura do nosso “projeto arquitetônico”. Afinal o que representa a torre de nossos templos?

Como celebrar a festa da Dedicação da Basílica do Latrão.

Neste contexto do século IV surgem os edifícios, inclusive a Basílica do Latrão, cuja festa da dedicação hoje celebramos. Esta que é a catedral romana se tornou símbolo da presidência da unidade e da caridade. Que pena em muitos momentos da história a cristandade representou a uniformidade, a conformidade e a omissão diante do império que massacrava populações inteiras e eram “catolicizadas” e não evangelizadas. Talvez por isso, que muitos dos belos templos, hoje são vendidos, pois existem bancos, mas não existe quem neles queiram se sentar na comunidade eclesial.

Francisco preside a Caridade

Francisco, ao deixar o palácio papal nos mostra como Espírito age no coração da história. Ao se tornar hóspede em Santa Marta, ele se faz irmão. Ao utilizar paramentos simples ele testemunha que a beleza da liturgia se dá na simplicidade (Cf. 1Cor3,9c-11.16-17).

O grande Templo é o Corpo de Cristo: a Igreja, contemplada aqui como comunidade humana. As orações e o prefácio da missa de hoje nos ajudam a contemplar esta realidade. Este corpo-templo é ferido ao ter um membro que passa fome, que sofre a dor da guerra e da indiferença.

Não precisamos de templos?!

Pastoralmente falando, precisamos que os edifícios nos ajudem a rezar. Porém, precisamos trocar o luxo pela simplicidade e a ostentação pela beleza. Principalmente, criar a consciência que primeiro se edifica é a comunidade, e que o edifício deve ser uma expressão do amor vivenciado no seio da comunidade.

Não nos esqueçamos que somos uma Igreja em saída (cf. Sl45) e conosco, está o Senhor. Cada pessoa humana é um templo vivo do Espírito Santo. A Igreja é formada por pessoas e não por tijolos e cimentos. A Igreja, Templo de Deus, precisa ir ao encontro dos templos profanados: pessoas humanas não amadas. Comunidade que gastam a maior parte de suas receitas em edifícios e dão somente o que resta aos pobres são expressões da idolatria moderna do cristianismo: Idolatria ao Templo – infecunda e estéril – incapaz de gerar adoradores em espírito e em verdade. A melhor teologia do templo está no diálogo de Jesus com a Samaritana no poço de Jacó.

Em que lugar estou? Na adoração do edifício ou no edifício da adoração?

De Babel a Pentecostes.

Senhor, livra-nos da ostentação religiosa. Livra-nos na Babel Moderna que edificam templos religiosos sem a sua presença. Volta o nosso coração ao templos profanados pela indiferença. Que um novo Pentecostes se realize a cada momento em nossa história e faça de nós… templos missionários… portadores do sacerdócio e da profecia… anunciadores do Teu Reino. Livra-nos da “zona de conforto e de segurança” dos nosso edifícios religiosos e nos lance na religiosidade do teu templo profanado no corpo do irmão que sofre. Amém.

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