Apaixonar, buscar e encontrar

20141102_171347Apaixonar-se por Deus é o maior de todos os romances, buscá-lo a maior de todas as aventuras e encontrá-lo a maior de todas as realizações. (Santo Agostinho)

Por pe. Éder Carvalho Assunção – Missionário da Prelazia de Lábrea no Corno Africano

A Santidade como o Bom Perfume do apaixonar-se de Deus

A santidade nada mais é do que o bom perfume do “apaixonar-se” de Deus pela humanidade. A iniciativa desta relação-revelação sempre foi dele. Ele nos amou por primeiro. Portanto, restam-nos dois caminhos: o da santidade e o da rebeldia. O primeiro se baseia na reciprocidade e o segundo na soberba. Em qual caminho sou peregrino?

São João nos fala (cf.Ap7,2-4.9-14) daqueles que foram “marcados”. Na verdade, ao recebemos a vida de Deus, ganhamos esta marca, este selo. “Amar e ser amado” constitui a nossa marca sacramental. Por esta marca estamos dispostos a tudo, inclusive, “alvejar nossas vestes no sangue do cordeiro”, pois, “é assim a geração dos que procuram o Senhor” (cf.Sl 23).

A paixão pelo Reino nasce desta consciência que é insuflada em nós pelo Espírito Santo, na espiritualidade da cotidianidade. O Doce Hóspede da Alma faz o nosso coração palpitar na alegria dos Filhos de Deus (cf.1Jo3,1-3).

Busca: coragem, fidelidade e superação.

Uma aventura exige de nós coragem, fidelidade e superação (cf.Mt5,1-12).

  • Coragem: Covardia não combina com o Evangelho. O Espírito nos leva através da ousadia da liberdade, a abraçar a causa do Reino com suas tristezas e alegrias. Quando buscamos somente a tranquilidade e o bem estar, temos um verdadeiro sinal de espiritualismo estéril e covarde, que produz o “religioso medíocre” incapaz de missionar e se “arriscar” pelo reino, como dia a mártir Cleusa, que dou sua vida pelos povos amazônidas.
  • Fidelidade: Quando abraçamos as “bem-aventuranças”, principalmente através da pobreza e da perseguição, não o fazemos como um kamikaze ou como um homem bomba, pois, a fidelidade a Palavra de Jesus nos acompanha: Amar e ser Amado. Esta fidelidade nos leva a não violência e a luta em favor da vida em todas as situações. O cristão não é um suicida, ele apenas é fiel e sabe onde depositou sua esperança.
  • Superação: Uma espiritualidade de resistência nos leva ao segredo da superação. Confiar sempre na graça de Deus e entregar a Ele nossas fraquezas e misérias. O mérito da santidade e da vida eterna são dons que jorram do Altar da Cruz, do Coração aberto de Jesus, e não de nossas forças. Uma verdadeira profissão de fé, nos leva a rezar… concedei-nos Senhor a graça de “superar todo cansaço, desilusão e ofensa, na paz e na alegria” (Oração da Comunidade Epifania).

Encontrá-lo no hoje da história, num já-ainda-não.

Encontrá-lo no hoje da história, num já-ainda-não, encontrá-lo na cotidianidade fazendo desta o prefácio da eternidade. Encontrá-lo na recordação do bem viver, da vida doada, das pessoas amadas. Encontrá-lo na plenitude eucarística da comunidade universal que se reúne. “Como o ponteiro de ferra crava na rocha uma inscrição” (cf. Jó19,1.23-27), assim esperamos, cravando no coração do outro a marcas cravadas no meu pelo Amor maior do Redentor. Se isto não nos realiza? O que nos realizará?

Porém, se eu “busco o consumo da fé” e não “me consumo pela fé” estrarei sempre como criança pirracenta, insatisfeita, reclamando de tudo e de todos. Buscando a fé só pra consumir uma “cura” e um “bem estar”, porém, não me realizo, pois minha busca é interesseira e não harmoniza com o “Apaixonar-se de Deus”.

“A Esperança não decepciona” (cf.Rm5,5-11). É verdade, quem ama não cobra do outro. Nossa relação com Deus e com outro, quando é baseada no Ágape, apenas amamos e nos sustenta o “resto” de Deus, como dizia Charles de Foucald. Quem se sacia com o “resto” de Deus encontrou a liberdade: “Dai-me Senhor o que vos resta”. Esta é a espiritualidade da “não-decepção”, da doação plena e incondicional.

Fizeste-nos Senhor para vós e nosso coração está inquieto (Santo Agostinho)

Numa lápide em um cemitério, aqui no Corno da África, encontrei o nome de padres que consumiram pela fé e aqui estão sepultados. Nestes nomes cravados, pude perceber que não missão Deus crava em nosso modo de viver, todos os dias: “eu te amo”, “sou louco de amor por ti”.

Celebrar os antepassados nos faz perceber que não somos os primeiros e nem os últimos, somos apenas mais um pequeno irmão, uma pequena irmã, que insiste em fazer de sua vida, mesmo com todas as limitações… um… : “eu te amo”, “sou louco de amor por ti”. E o Amado aqui é Deus, e o amado no Amado, é o irmão e a irmã que ninguém quer Amar.

Seguindo este itinerário de fé, celebramos Todos os Santos e Finados, professando a comunhão dos santos, acreditando que em Deus, todos nós somos viventes, e que quando se vive bem, se morre bem… e assim, ressuscitamos em Cristo na força da Trindade.

“Todos os que Pai me confia, virão a mim, e quando vierem, não os afastarei” (Cf.Jo6,37-40) Portanto, não há o que temer, não é preciso se desesperar… basta segui o conselho de Agostinho: apaixonar, buscar e encontrar.

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