Advento: Um olhar à partir do ventre de Maria

Por pe. Éder Carvalho Assunção – Missionário da Prelazia de Lábrea no Corno da África

Quem diria que numa sociedade patriarcal o “sim” de uma jovem mulher comportasse um valor único na história da Redenção. O diálogo de Maria e Gabriel apresenta a linguagem divina que agora assume uma característica única. Se outrora Deus comunicava através da intuição e da leitura dos sinais da natureza, encontramos neste diálogo Deus que fala à partir do ventre livre de Maria que assume sua missão de ser mãe do Redentor.

Portanto, a mulher grávida é o grande símbolo do avento. Não se trata simplesmente da ternura e da beleza que emana da gestação, afirmamos aqui, a gestação como lugar teológico. Enquanto muitos sonham como Davi e acham que o espaço sagrado se resume no templo, no edifício, Deus se revela em outra através da vertente da sacralidade da vida humana, onde templo se torna habitação, onde habitação se torna descendência, onde a pedra dá lugar à pessoa humana.

Podemos se aproximar de tal mistério fazendo um exercício de “imaginação” à partir dos olhares que inauguram esta nova comunicação.

  1. O olhar de Maria no silêncio de sua casa, para o seu ventre. As suas mãos que acariciam. O que se passou em seu coração semanas depois, onde ela sente o Coração de Jesus em seu ser. Imagine o olhar de Maria para a sua barriga antes do nascimento de Jesus, a expectativa, o amor, a espera.
  2. O olhar de Jesus desde o ventre materno. Hoje sabemos que o amor antes, durante e depois da concepção é fundamental na vida da pessoa humana. Com 14 dias de gestação inicia-se a formação do córtex cerebral, os sistema nervoso, enfim, no ventre o novo ser sonha. O verdadeiro advento nos insere neste olhar e neste sonhar de Jesus no ventre de Maria.

Utilizamos estas imagens simplesmente para “tentar se aproximar” do grande Mistério da Encarnação, que ao longo do Tempo do Natal teremos a oportunidade de contemplar os outros ângulos dos olhares de Jesus.

Em muitas comunidades aborígenes espalhadas pelo mundo, encontramos a prática do sepultamento em posição fetal. É interessante a leitura de vida. Ao morrer você é devolvido ao ventre da terra na mesma posição em que foi gerado. Relato de pessoas vítimas das ditaduras e dos terroristas, revelam que após as torturas, quando eram lançados nas “solitárias”, feridos e nus, a posição fetal, “dos joelhos próximos ao peito” revelam como o corpo se comunica. Esta posição amenizava o sofrimento e dava esperança. Aqui no corno do África encontro todos os dias, crianças refugiadas que dormem na rua, na mesma posição, tendo a pedra como travesseiro.

Sendo assim, o Advento nos lança no Ventre de Deus, onde podemos nos comunicar com ele na liberdade de filhos. Muitos transformam este tempo em “uma medíocre preparação de festinha de aniversário de Jesus”. É preciso ir além, é preciso renascer. É preciso atualizar o olhar e o sim de Maria em nossa vida hoje. É preciso revelar ao mundo a beleza do Mistério da Encarnação se inculturando na realidade daqueles que perderam a esperança e que neste momento, vivem a sua “solitária” em posição fetal e, necessitam do Advento de um irmão, de uma irmã, que sou eu, que é você, que somos nós, que assim como Maria, pela graça de Deus, “tem um ventre maduro, um útero fecundo, um passo constante e um Amor Amante”.

Primeira Leitura (2Sm 7,1-5.8b-12.14a.16)

Responsório (Sl 88)

Segunda Leitura (Rm 16,25-27)

Anúncio do Evangelho (Lc 1,26-38)

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